domingo, 10 de junho de 2012
Resenha: O Processo, de Franz Kafka
A minha experiência com esse livro é bem peculiar. Nunca havia ficado sem fôlego ao ler alguma coisa, e esse livro me tirou o ar várias vezes. Uma sensação de sufocamento e melancolia, misturados com uma ansiedade interminável para saber no que vai dar tudo aquilo. O filme de Orson Welles também é aprazível, mas recomendo que o livro venha antes.
O Processo se apega a uma crítica da verticalização da desesperança. Uma crítica, antes de mais nada, ao individualismo - aspecto marcante da obra, que vai ao extremo do isolamento e do desespero, numa atmosfera onde há ausência de solidariedade. Uma crítica ao objetivismo, mostrando que esse, ao invés de libertar-nos, apreende-nos. Em quase nenhum momento o senhor K. se encontra efetivamente sozinho, mas sente-se sozinho. Não há ideia alguma de solidariedade, os indivíduos não conseguem estabelecer conexões significativas, e isso fica bem claro em vários momentos, como quando o senhor K. tenta estabelecer uma conversa com o seu advogado, mas em nenhum momento encontra resposta ou ao menos indícios do motivo pelo qual foi condenado. Decerto há interação entre eles, porém, são conexões frágeis, insignificantes, o que caracteriza a existência de uma solidão coletiva. Talvez possamos dizer que são corpos isolados, inclusive no hemisfério de seus próprios desejos e ideias. Essa demonstração - a ausência de contatos significativos - é típica da contemporaneidade: um extremo de isolamento. Também percebe-se a recusa de qualquer sentido geral para as coisas, porquanto tudo o que acontece possui apenas um sentido individual. O senhor K. procura uma razão geral, um motivo que proporcione o sentido do geral para o particular: alguém o acusa, ele se angustia com isso, mas não se explicita em momento algum o sentido geral para isso.
O resultado é um abismo: quanto mais ele procura a lucidez, mais adentra em um universo nonsense. Isso é perturbador. Quando o senhor K. entra no tribunal, não encontra sentido, não encontra sequer a existência de um método legítimo para comprovar sua acusação. Não encontra seriedade no juiz, uma figura imponente e distante dele, metafisicamente falando. Ele entra em colapso, experimenta um sentimento de desesperança total, em que a objetividade das coisas inexiste, apesar de ser comprovada naquela lei, naquele ordenamento! É uma atmosfera labiríntica, obscura, mística. A lei alcança tudo, mas essa objetividade não ajuda a obter um sentido finalístico dela, ou ao menos saber qual a nossa posição perante ela. Na objetividade cabe tudo - inclusive a loucura. O extremo da objetividade científica é o desespero, são labirintos aos quais estamos presos. O cientificismo produziu pesadelos modernos. O rigor objetivo não necessariamente nos leva a um resultado equilibrado, pelo contrário. O excesso de objetivação individualista é a própria negação do individualismo e das diferenças.
O Processo, portanto, é um livro que fora constituído como um contraponto aos delírios de magnificência da ciência contemporânea, do individualismo e da objetividade absoluta da lei. Ele vê esses princípios de forma profundamente crítica, demonstrando que extrair todos os valores da lei pode não resultar nos seus próprios pressupostos. É nesse plano que O Processo se ratifica. Há a necessidade de questionar a culminância disso. Qualquer reformulação ou contestação que fizermos a esse processo deve partir do pressuposto de que a ciência não é a única forma de alcançar a verdade. O seu excesso de objetivismo é indubitavelmente um erro.
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